Agora e Depois

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CAFÉ SPORT, CAFÉ DOS NAVEGANTES

 

 

 

A luz primaveril atreve-se,

discreta,

pelas janelas, pela porta franqueada.

Nas paredes, no tecto, em toda a parte,

profusão de bandeiras, auriflamas, galhardetes,

gratas memórias de marítimos visitantes.

 

Rodam os dias

e com eles vão chegando ao porto

mais veleiros, iates de recreio…

E desde há muito este espaço hospitaleiro

é o ponto de encontro,

em terra firme,

dos que procuram um pequeno parêntese de convívio

após a longa solidão dos caminhos do mar.

 

Àquele, com seu cabelo cor de fogo,

(não me seja negada a fantasia!)

hei-de chamar Willem, ou Claus,

holandês de nação.

Ao outro, americano certamente,

Michael. De Nova Iorque.

E diz o holandês (suponho),

pretendendo ascendência e predomínio

no amor deste Arquipélago,

que o pai – isto há-de haver 70 anos –

foi dos que andaram por ali, naquele mesmo porto,

ligando as pontas dos cabos submarinos

que tornaram possível o diálogo

entre os vários países da Europa e América.

E o outro,

agitando levemente o copo de gin tónico,

responde que o avô, hábil piloto da Pan Am,

levava o hidroavião, em 1920,

de Port Washington a Lisboa,

e no percurso inverso,

e a escala era infalível no Faial.

 

Sentado à mesa do café,

engendro estas poéticas mentiras,

até por ser o dia 1 de Abril,

a elas tão propício.

 

Olho através da janela o nosso Fujiama,

quero dizer: o Pico, lá na ilha fronteira,

e ele, superior a tudo isto,

envia-me um sorriso complacente e cúmplice,

e mais:

traça no ar o seu cachecol de nuvens brancas.

 

                                                             NORBERTO ÁVILA