NORBERTO ÁVILA
ARLEQUIM NAS RUÍNAS DE LISBOA
Comédia de maus costumes
Escrita em 1992 e nesse mesmo ano estreada em Lisboa, no Teatro da Trindade, com encenação de Carlos Cabral, teve por essa altura uma 1ª edição restrita, da Escola Superior de Teatro e Cinema; 2ª edição: Novo Imbondeiro, Lisboa, 2004. Próxima edição: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, numa recolha de 18 peças do autor, em 2 volumes.
OPINIÃO
(de Valentim Lemos, a propósito desta peça) : “Num país onde o teatro é olhado com pouco interesse pelo poder e com desconfiança pelo grande público, num país onde a edição teatral é escassa e a produção de peças originais portuguesas é diminuta, Norberto Ávila aceitou o risco da situação de dramaturgo profissional; é um dos únicos, senão o único, dentre os nossos dramaturgos actuais, que o fez. A sua produção dramatúrgica é, por isso, regular, e dessa regularidade resulta uma experiência acrescida, um ‘métier’ que apoia a vontade criativa. As suas peças, cada vez mais solicitadas, encontram um acolhimento caloroso, embora continuem – é mania nacional – a ser melhor conhecidas no estrangeiro que em Portugal.”
SINOPSE:
O jovem Alceu Beringela regressa a Lisboa nas vésperas do terramoto de 1755. (Estivera uns anos em Goa, ao serviço do Marquês de Távora, Vice-Rei da Índia. De passagem por Veneza, deixou-se encantar pela commedia dell’arte, e acompanhou mesmo uma companhia itinerante por várias cidades. O seu grande sonho: tornar-se um Arlequim, em Portugal.)
Este nosso Arlequim (cujo fato tradicional o caracteriza) encontra a sua casa ocupada pela madrasta, que ele ainda não conhece. O pai, especialista em falsos testemunhos, está preso no Limoeiro.
Arlequim apaixona-se então por uma jovem vizinha, Marília, a quem ele chama “a sua Colombina” e dedica-se à venda de folhetos de cordel.
Com o sismo do 1º de Novembro, desmoronam-se umas paredes do Limoeiro, e Cornélio Berigela, pai de Arlequim, põe-se a salvo e entrega-se ao saque das nobres residências arruinadas. Como, na sua juventude, Cornélio havia sido titereiro no Teatro do Bairro Alto (de António Josè da Silva), o filho desafia-o a criar uma companhia teatral. Mas o cavalheiro de indústria não está para aí virado. Prossegue nos seus rapinanços, até que se lhe desmoronam em cima uns escombros do muro do quintal. E não sobrevive.
Com a cumplicidade de Marília, Arlequim surge em casa trasvestido de freira de Odivelas e convence a madrasta (Libertina Vitalícia) a fixar residência no famoso convento. Fica-lhe a casa, portanto, à inteira disposição.
Marília, que entretanto passa a viver com Arlequim, entra ao serviço de Sebastião de Carvalho e Melo (futuro Marquês de Pombal), a quem pede patrocínio para a tão desejada companhia teatral de Arlequim. E este, como prova do seu talento, decide-se a imitar o jesuíta Gabriel Malagrida, visceral inimigo de Carvalho e Melo. Porém o Ministro não se comove. E tem outras prioridades. Está a reconstruir Lisboa!
Põe-se a hipótese de Arlequim aceitar o patrocínio dos Marqueses de Távora (entretanto regressados à pátria). Mas o ilustre casal vê-se envolvido nas suspeitas de atentado contra o Rei D. José. E Arlequim, pelo simples facto de ter sido criado dos suspeitos (já condenados à morte), receia continuar em Lisboa. Com Marília, grávida, decide empreender uma romagem a Santiago de Compostela e permanecer no estrangeiro até que os ares em Portugal se tornem mais respiráveis.
***
Cena 5
Foram removidos os escombros do muro e, naturalmente, o cadáver (o braço, melhor dizendo) de Cornélio Beringela. Isto, durante um breve intermédio musical: um irónico comentário de flauta indiana, neste caso atributo sonoro de Arlequim.
E agora, não pelo portão do quintal, mas pelo largo espaço que ficou aberto no muro, devdo ao desmoronamento (símbolo de fronteira aberta e facilmente franqueável), entra Marília. Espreita para o interior da casa.
MARÍLIA — Arlequim!
LIBERTINA (que passa um esfregão no tampo da mesa) – Não está. Há-de andar por aí, na venda das suas bugiarias de prosa e verso. (Imita-lhe o pregão:) “Juízo Infalível para o Ano de Mil Setecentos e Carqueja”! “O Caso do Homem que Matou a Sogra no Dia dos Santos Inocentes”! “Versos ao Terrível e Exemplar Terramoto que Destruiu a Soberana e Soberba Cidade de Lisboa”! “Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto de 1755, pelo Padre Jesuíta Gabriel Malagrida”! Enfim… essa vida vagabunda que ele prefere!
MARÍLIA – Ah, mas que cabeça a minha! Ele bem me disse ontem à noite que o seu paradeiro hoje, durante todo o dia, seria o adro dos Jerónimos. Sendo assim, está muito longe! (E, dissimuladamente, com uma das mãos, faz sinal para trás, ao disfarçado apaixonado, para que se aproxime.)
(Com efeito, acaba de entrar no quintal, seguindo-lhe os passos, o incorregível Arlequim, trasvestido de freira de Odivelas. Trata-se de uma madre ligeiramente encorpada, cujo hábito se adorna de folhos e rendas, segundo a condescendência da época. A máscara arlequinesca. Idêntica na forma, é agora branca ou, pelo menos, bastante mais clara.)
MARÍLIA – É que chegou agora ali, a minha casa, uma freira de Odivelas, perguntando por Arlequim. Melhor dizendo: perguntando por D. Libertina Vitalícia, que assim julgo ser o nome exacto de Vossa Mercê.
LIBERTINA – Foi esse o nome que me puseram na pia.
MARÍLIA – E não piou, pelos vistos. Se fosse eu, teria desatado num berreiro infrene! Teria mijado o colo da madrinha e rachado de meio a meio a cabeça do padre cura!
(No quintal, Arlequim funga de riso, mas logo se recompõe.)
MARÍLIA – Ele, na verdade, há nomes que parecem predestinatórios e marcam bem uma conduta. Mas não é certamente em termos de conduta… menos ainda de conduta terminada em… uta que lhe vem falar a boa Irmã…
ARLEQUIM (aflautando a voz, como o fará nas intervenções seguintes) — …Madre Maria Verónica dos Santos Sudários de Turim, Besançon, Carcassona e Xabregas.
(Enxugando as mãos a um pano, Libertina vai ao encontro da pretensa freira, já no limiar da porta.)
MARÍLIA – É de nobre sangue!
ARLEQUIM – O dos próprios Santos Sudários!
MARÍLIA – Que melhor sangue haverá?!
LIBERTINA – Madre Reverendíssima: sou vossa humilde servidora. Queira Vossa Maternidade dar-se ao incómodo de entrar nesta casinha.
ARLEQUIM – Deus a conserve de pé e mais ao seu ilustre proprietário, o senhor Arlequim, digo Alceu Beringela.
LIBERTINA – Bem, esse senhor não tem desta casa a propriedade exclusiva.
ARLEQUIM – Não?
LIBERTINA – Falecida a mãe desse rapaz, o malogrado pai – Cornélio Beringela – casou comigo à face da Santa Madre Igreja. Pelo que, como deve calcular, Reverenda Madre, ainda me acho com direito a um bom naco desta moradia.
MARÍLIA – Talvez àquele muro que se desmoronou no quintal.
LIBERTINA – Reduza-se à sua insignificante insignificância, Menina Marília de Coisa Nenhuma. (Para a falsa freira.) Mas queira Vossa Maternidade sentar-se nesse tamborete.
ARLEQUIM – Bem, já que não há melhor assento… (Vai a sentar-se quando repara num prato de azevias sobre a mesa.) Ai, meu Deus! Azevias! E eu que sou doida e perdida por azevias!
LIBERTINA – Pois sirva-se, Reverenda Madre.
ARLEQUIM (servindo-se) – Não fosse eu alentejana! Nada e criada em Cuba! Fidelíssima às minhas origens! (Senta-se e vai saboreando o doce.)
LIBERTINA – Não prefere Vossa Maternidade que falemos a sós?
ARLEQUIM – A sós? (Estende o prato de azevias a Marília.) – Coma, Menina Colombina.
MARÍLIA (receando comprometedoras atrapalhações de Arlequim) – Marília é o meu nome, Reverenda Madre. (Serve-se.)
ARLEQUIM – Coma e não faça cerimónia… já que tão gentilmente se prestou a fornecer-me tão preciosas informações…
LIBERTINA (inquieta) – Informações?
ARLEQUIM — …e a acompanhar-me a casa de D. Libertina Vitalícia, aqui presente. (E faz vénia.)
LIBERTINA – Mas diga-me Vossa Reverência a que devo a honra desta visita.
ARLEQUIM – O caso é este… (Fazendo render a conversa, de modo a intrigar a crédula Libertina.) Deliciosas azevias! Há muito que as não como tão gostosas! Mas, retomando o fio à meada — conforme se diz tantas vezes em obras de tão ilustres autores, como Sócrates, Platão e Tolentino das Berças — o inefável terramoto do mês passado, com que Deus Nosso Senhor foi servido sacudir-nos, veio alterar profundamente o âmago da nossa sociedade lisboeta e perfericamente circundante. Ponto, para pausa e azevia. — Não ignora Vossa Mercê que, logo nos dias subsequentes e consuetudinários, se desencadeou nesta cidade uma onda de comportamento criminoso, mormente no que respeita a assaltos, roubos, saques e pilhagens.
LIBERTINA – Sim, Reverenda Madre. Chegaram-me quaisquer zunzuns…
(Nisto, abre-se, rangente, uma meia-porta do guarda-fato em que estão suspensas as casacas e outras peças de roupa ingloriamente arrebanhados pelo defunto marido. A pretensa freira sobressalta ligeiramente. Marília solta uma gargalhada. Libertina apressa-se a fechar o guarda-fato impertinente.)
MARÍLIA – Quem diz que não sobrevive nas roupas o espírito daqueles que as possuíram?
LIBERTINA (para Marília, muito abespinhada) – Heresias e blasfémias? Em minha casa, não! – Mas continue Vossa Maternidade o seu precioso discernimento.
ARLEQUIM – Os que foram apanhados em flagrante delito de roubo e profanação de cadáveres… tiveram logo o merecido castigo.
LIBERTINA – E muito bem. (Deus lhes dê a salvação.)
ARLEQUIM – Enforcados, no alto dessas colinas de Lisboa.
MARÍLIA – Duzentos, segundo se diz.
ARLEQUIM – Isso. Estamos coincidentes nesse número. — E o nosso Rei D. José I, que até há pouco só se preocupava com a caça, a tourada e a ópera…
MARÍLIA – E alguns amores de recurso ilegítimo. Em casa dos Távoras, por exemplo.
LIBERTINA – Ah!
MARÍLIA – Refiro-me à consabida paixão por D. Teresa, a Marquesa nova…
ARLEQUIM – De modo que — dizia eu — o nosso Real Senhor só pensa agora em confessar-se e fazer penitência. E toda a Corte se regozija por ter sido poupada. Dizem então os padres jesuítas que esta cólera divina se desencadeou devido ao nefando pecado do Ministro Carvalho e Melo.
LIBERTINA (curiosíssima) – Que pecado? Que pecado?
ARLEQUIM – O de injuriar a Compenhia de Jesus, com a qual antipatiza visceralmente. Ora, Carvalho e Melo é que segura neste momento, com mãos férreas, as rédeas da governação.
LIBERTINA – E isso é bom?
ARLEQUIM – Vamos a ver. Para já – isto sei eu de visitantes muito bem informados – Carvalho e Melo mostra-se deveras apostado em virar Lisboa do avesso.
LIBERTINA – Mais do que ela está?
ARLEQUIM – No bom sentido. (Levanta-se.) Eu explico: vai aproveitar a ocasião para perseguir, e expulsar para vinte léguas de distância, as prostitutas, as concubinas, as proxenetas, as cartomantes, as prostitutas, as adivinhadeiras, as vendedeiras de filtros amorosos, as pregoeiras de profecias, as prostitutas… Mas, afinal, não sei por que estou a referir estas minudências, quando é bem diferente o objectivo que me trouxe aqui, D. Libertina Vitalícia.
LIBERTINA (com um suspiro de alívio) – Ah! Queira voltar a página, portanto.
(Arlequim, depois de humedecer nos lábios o dedo indicador, mima voltar a página.)
ARLEQUIM – É que, paralelamente, chegou aos nossos ouvidos, lá no glorioso Convento de Odivelas, a fama da sua vida exemplar, das suas muitas virtudes…
LIBERTINA – Será possível?
ARLEQUIM – Ora acontece que, apesar das muitas candidaturas recebidas, de senhoras e donzelas que pretendem refugiar-se no conforto (moral e material) da nossa casa… temos uma cela, digo melhor: um amplo e lindíssimo aposento… vago, inteiramente disponível.
MARÍLIA – Com a falta de alojamento que todos sabemos haver…
ARLEQUIM – Ora, isto foi uma inspiração divina: manter desocupado o referido aposento. Que aliás é um dos mais belos que possuímos. Ligeiramente superior, só o que fica mesmo em frente, o da Madre Paula.
MARÍLIA (metediça) – Essa Madre Paula é a que foi amante do falecido Rei D. João V?
ARLEQUIM – E não só. Antes dele, de muitos outros nobres fidalgos, que precisamente se viram obrigados a ceder o lugar a Sua Majestade. Ai, foi realmente um privilégio para o nosso convento: rece- ber, desde há tantos anos, tão ilustres personagens! A Madre Paula (“a nossa Madame Pompadour”, como nós lhe chamamos) vai certamente apreciar a sua vizinhança, minha boa amiga.
LIBERTINA – Mas… não me diga Vossa Reverência que…
ARLEQUIM – Digo, digo. O aposento é seu e de mais ninguém.
LIBERTINA (juntando as mãos) – Não caibo em mim de contente!
ARLEQUIM – Andei por aí a informar-me a respeito de Vossa Mercê…
LIBERTINA – Ai!
ARLEQUIM – …e agora mesmo venho da igreja de Santa Maria Madalena a Pecadora. Tanto o reverendo padre cura como o respectivo sacristão…
LIBERTINA – Virginal…
ARLEQUIM – Isso não sei… Mas ambos me falaram, comovidos, da muita piedade de Vossa Mercê. Da muita licenciosidade e lubricidade. Numa palavra: da sua muita generosidade.
LIBERTINA – Bem, eu dou para lá umas esmolas, ao sábado, produto de algum trabalho meu. Trabalho doméstico, evidentemente.
ARLEQUIM – Muito meritório, minha filha. Muito meritório.
MARÍLIA – O trabalho ou a esmola?
(Libertina lança-lhe um olhar furibundo.)
MARÍLIA – Eu sou testemunha. Da casa desta vizinha tenho eu visto sair muitos clientes, todos eles com cara de imensamente satisfeitos… com o trabalho.
ARLEQUIM (vendo-a servir-se de mais uma azevia) – Não faça cerimónia. Tire todas, tire todas; que esta senhora não vai ter falta de doces no nosso abastado Convento de Odivelas. (Escancarando-lhe o bolso do vestido, lança-lhe para dentro as restantes azevias.)
MARÍLIA – Muito lhe agradeço, Reverenda Madre.
ARLEQUIM – Mas não me olhe assim, D. Vitalina Libertícia, com esses olhinhos de vaca charolesa. Na verdade, as suas delicadas mandíbulas conhecerão as delícias da nossa confeitaria monástica. A saber: (e vai contando pelos dedos) Suspiros, esquecidos, raivas, tabefes, fartéus, torrões rosados de açúcar, doces de abóbora e de cidra…
MARÍLIA – Não esquecendo a famosa marmelada, em que vós todas, freiras de Odivelas, sois verda-deiramente inexcedíveis…
ARLEQUIM – Assim é, com efeito. (Para Libertina.) Que gentil e maravilhosa criatura! Não acha Vossa Mercê? E que pena tenho eu de privá-la do salutar convívio desta sua vizinha. Mas os desígnios de Deus… Não é verdade?
LIBERTINA – Vou começar a preparar-me, se Vossa Reverência me permite.
ARLEQUIM – Sim. Mas, de qualquer modo, ser-me-á impossível esperar por Vossa Mercê. É que tenho de ir… apresentar os meus respeitos ao Cardeal Patriarca (com quem jantarei um estufado de faisão, ao que parece) e só depois ele fará a gentileza de ir levar-me a Odivelas, no seu coche dourado.
MARÍLIA – Que felizmente escapou ao terramoto.
(Entretanto, Libertina Vitalícia foi buscar uma toalha, que estendeu sobre a mesa, em que lança alguns objectos e jóias, na intenção de fazer a trouxa de viagem)
ARLEQUIM – Mas que pretende levar Vossa Mercê? Essas bugigangas? Deixe tudo isso. Jóias? Para quê? Não lhe faltarão presentes desse teor, da parte, talvez de muitos galantes apaixonados. Já esta noite, talvez, que é dia de sarau, com versos, músicas e danças.
LIBERTINA – Então, e eu apresentar-me-ei assim, sem objectos pessoais, e ainda por cima desprovida de dote?…
ARLEQUIM – Mas que raça de dote desejaria levar?
LIBERTINA – Metade desta casa, que é o que me cabe.
ARLEQUIM – Que disparate! Não há facalhão que sirva para parti-la ao meio.MARÍLIA – E esquece Vossa Reverência as tendências da nova legislação de Carvalho e Melo? Segundo a qual…
ARLEQUIM – …segundo a qual, havendo filho legítimo — neste caso, Alceu Arlequim — nunca a viúva de um segundo matrimónio…
LIBERTINA – Como assim? Viúva de um segundo matrimónio? Eu só casei uma vez.
ARLEQUIM – Refiro-me ao segundo matrimónio de Cornélio Beringela (que Deus tenha em bom lugar) precisamente com Vossa Mercê. Dizia eu que, neste caso, nunca a viúva de um segundo matrimónio terá direito a herdar seja o que for. Ora, deixe nesta casa o que a esta casa pertence. (Cobre as jóias e os outros objectos com a ponta da toalha.)
LIBERTINA – E a que horas deverei apresentar-me no Convento, Reverenda Madre?
ARLEQUIM – Entre cão e lobo. Por outras palavras: ao lusco-fusco. Lá aguardaremos Vossa Mercê, com todas as honras. O seu aposento está preparado. Tudo madeiras do Brasil, espelhos de Veneza, veludos, sedas, flores, que sei eu? Do que mais vai gostar — tenho a certeza — é de um engenhoso relógio de pêndula, francês, que a todas as horas lhe tocará o minuete.
LIBERTINA – Ai, que toda eu tremo e anseio por essa música!
ARLEQUIM – Mas refreie o seu entusiasmo e prepare-se para escrever umas palavrinhas de despedida, muito gentis, que há-de deixar ao dono da casa, seu enteado.
LIBERTINA – Para dizer a verdade, não sou pessoa de grandes luzes em matéria de leitura; menos ainda… de escrita.
ARLEQUIM – Ora sente-se lá à mesa, que a boa Marília lhe ditará o que deve escrever.
MARÍLIA (dispondo-se a isso) – Da melhor vontade.
LIBERTINA – Prefiro que seja Vossa Reverência a prestar-me essa ajuda. (Senta-se à mesa.)
(Arlequim, que naturalmente conhece os cantos à casa, vai para abrir uma gaveta. Apercebendo-se do deslize, que o poderá denunciar, suspende o acto.)
ARLEQUIM – E os apetrechos da escrita, minha boa amiga?
LIBERTINA – Aí, precisamente, nessa gaveta.
ARLEQUIM – Curioso. É bem verdade que me cheirou a papel e tinta. (Abre a gaveta, da qual tira papel, tinteiro e pena de pato, que põe à frente de Libertina Vitalícia. Molha a pena no tinteiro e entrega-a à desajeitada escrevente.)
LIBERTINA – Há-de ser em prosa ou verso?
ARLEQUIM – Em prosa, que é mais natural.
MARÍLIA – E mais rapidinho. (Tira do bolso uma azevia, que oferece à pretensa freira, e logo outra, que vai saboreando.)
ARLEQUIM (alternando o ditado com deliciadas dentadinhas na azevia) – “Senhor Alceu Arlequim”. — É esse o nome, não é?
MARÍLIA – Alceu é nome de baptismo, creio eu. Arlequim… é acrescento italiano, segundo parece.
ARLEQUIM – Portanto: “Senhor Alceu Arlequim…”
LIBERTINA – Eu nunca o tratei por senhor…
ARLEQUIM – Pois passará a dar-lhe esse tratamento, que assim mandam as regras da boa educação. — Senhor Alceu Arlequim, Excelência.”
(E, suando as estopinhas com o esforço intelectual, Libertina Vitalícia vai escrevendo a carta. Por vezes descai-lhe a língua da boca, como é próprio de tais pessoas em tais circunstâncias.)
ARLEQUIM – “Aproveitando a suprema graça que me é concedida pelo Céu e pelo sacrossanto Convento de Odivelas, por intercessão da Venerável Madre Maria Verónica dos Santos Sudários…”
MARÍLIA – …de Turim, Besançon, Carcassona e Xabregas…”
ARLEQUIM – …refugio-me jubilosamente na vida religiosa. — Declaro renunciar aos meus direitos sobre esta casa…”
MARÍLIA – Se me permite, Reverenda Madre…
(A falsa freira olha-a com ar maternalista.)
MARÍLIA – Dizer-se que se renuncia a quaisquer direitos… isso é admitir que esses direitos existiram, de facto. O que não é verdade.
ARLEQUIM – Tem muita razão. Cada vez mais gosto de ti, Colombina. Digo: de si, menina Marília. — Escreva, portanto: — “Declaro não possuir quaisquer direitos sobre esta casa — que toda ela é exclusiva propriedade de Vossa Excelência. — Deus guarde a Vossa Excelência o melhor que puder — etc. e tal — Lisboa, não sei quantos de Dezembro de 1755.”
LIBERTINA (exausta com o esforço despendido) – “…não sei quantos de Dezembro de 1755.”
(A este passo, estando a falsa freira em primeiro plano, voltada para a escrevente e de costas para os espectadores, puxa uns cordéis que lhe levantam acentuadamente a parte de trás do hábito, deixando ver, nas pernas, o colorido fato do verdadeiro Arlequim.
Muito a custo, Marília sustém um inoportuno ataque de riso.
Escuro.)
(…)
.............................................. NORBERTO ÁVILA